A chuva fazia da janela uma tela impressionista
Eu e meus pensamentos, ele e os pensamentos dele. Vagávamos num carro distante. O silêncio se quebrava inoportuno.
Indiferente. Revigorava-se... Mordia a unha. Sorria pra chuva. Discordava. Decidia-se. Chorava a chuva silenciosa.
Discutiram. Ela chorou. Ele a abraçou. Ela não quis. Estava cansada.
Sempre soube que em algum dia de chuva e uma tpm, o temperamento dele seria a gota d´água.
Borravam-se as luzes noturnas. Memórias do namoro entre as indas e vidas do pára-brisas.
Queria abraçar-se, pois sentia que não podia mais abraçá-lo.
Uma angústia os separava.
Uma mal palavra.
Uma não palavra.
Que sentenciou o amor despetalado.
A chuva fazia da janela uma tela impressionista.
OBS: Pode ler as frases debaixo pra cima também. Foi feito para o Twitter.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O futuro era mais divertido
Ensaio Sobre a Infância
Ouço as crianças gritando, vejo-as correndo de um lado para o outro da quadra. Da janela do 16º andar, sinto a pergunta “o que você quer ser quando crescer?” pesar nos meus dias. Porque já cresci. Porque ainda tenho várias respostas esdrúxulas.
Saudades do tempo em que batia o sinal e corríamos para o paredão que limitava a quadra. Entre gritos de um ou de outro: “paredão!”, “mãe da rua!”, eu sentia meu coração acelerar e já não pensava mais no dever de matemática ou nos exercícios de gramática do odiado livro Crescer e Comunicar.
Nas férias, andava descalça, subia em árvore, comia fruta do pé, que saudade do abiu! Paraty tinha uma lua linda na serraria, na roça – zona rural, porque a megalomania tornou o primeiro termo pejorativo e agora devo ser politicamente correta. Que saudade da roça! Correr pelo pasto, fugir do gado, passar por baixo da cerca, arranhar as costas no arame farpado e esquecer a dor pulando na água gelada de uma cachoeira só minha e dos meus primos. Comer ovo da galinha que vem da galinha que anda, corre, voa. Alimentar os pintinhos dizendo “pipipipipiiiiii” e vê-los todos vindo atrás de mim. Eu mal sabia que, num dia de domingo qualquer, um ou outro, já crescido, seria o meu delicioso almoço.
Quando se é criança, a ignorância pode ser ingenuidade, é uma falta necessária para alimentar o ambiente lúdico. Foi só com uns 15 anos que descobri que o meu passarinho não tinha voado para a liberdade. Até imaginei todas as suas aventuras pelo mundo. Foi apenas com uns 15 anos que pude ficar de luto. No entanto, ainda posso lembrar muitas das aventuras do meu passarinho. É curioso, não lembro o nome dele. Lembro que era amarelo e que cantava. Ou imaginei que cantava? A ficção é a verdade que ainda não foi provada. E a verdade é uma ideia aprovada por muitos alguéns ou um alguém importante qualquer.
Meu avô é a pessoa mais importante para mim. Sempre quis transformá-lo em um personagem de ficção ou documentário. Nossas longas conversas sobre a vida me faziam enxergar nos olhos cinzas, calejados pelo sol, a sabedoria do velho pescador que, quando criança, acreditava que o mundo inteiro era aquela ilha onde nascera. O que não deixa de ser verdade.
Afinal, em que ilha eu vivo? Às vezes acho que na bolha da Av. Paulista e seus afluentes. Mas acho que vai além disso. Em que ilha eu vivo? Em que ilha você vive? Quero percorrer outras ilhas para, ao menos, descobrir em quais ilhas eu não vivo ou em qual ilha eu quero viver. Mas é difícil sair da sua própria ilha, principalmente quando você acha que ela é o mundo inteiro.
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